Ser autor...


Nos últimos meses, recebi uma grande quantidade de mensagens de outros autores pedindo dicas e orientações para quem está iniciando no mundo literário. Essa é uma pergunta que sempre fiquei sem saber direito como responder. Sempre me perguntava como eu, uma autora relativamente nova na profissão, poderia “ensinar” alguém a ser um escritor melhor, quando ainda estava tentando descobrir isso.

Por incrível que pareça, essa pergunta continuava martelando na minha cabeça e, por mais que eu me esforçasse, nunca conseguia dar uma resposta que eu achasse estar à altura do que os colegas escritores queriam ouvir.

Então, ontem à noite, uma conversa com uma leitora me fez refletir exatamente sobre isso. Falávamos sobre a forma cruel como algumas pessoas dão sua opinião a respeito de livros, sem se preocupar com o sentimento de quem gostou — ou até mesmo de quem o escreveu. Ela achava injusto que alguém falasse mal de um livro, e o autor, por exemplo, não tivesse a chance de “se defender” ou defender sua obra.


O desenrolar dessa conversa me fez pensar em determinados pontos que precisamos desenvolver em nós mesmos quando decidimos escrever. Ser autor é, na realidade, dedicar apenas cerca de 30% do seu tempo — quando muito — à sua escrita. Ser escritor envolve uma série de atividades bem distantes de sentar no computador com o editor de textos aberto e digitar palavra por palavra daquela história muito legal que você quer escrever. Precisamos cuidar do marketing, das vendas, dar entrevistas à blogs, atender aos leitores, administrar um sem fim de redes sociais, ir inúmeras vezes aos correios, desenvolver brindes, participar de eventos, além de muitas outras coisas que, na maior parte das vezes, sequer dominamos.

​​Ser autor requer equilíbrio e estabilidade emocional. É entender que nem todo mundo vai gostar do que você escreve. Que nem sempre vão tratar sua história com respeito e dignidade, ou levarão em conta o quanto de trabalho você e todos os envolvidos na produção daquele livro tiveram para que alguém pudesse ler. Muitos se acharão soberanos em relação àquilo que você escreve. Vão querer limitar sua criatividade, impor que suas histórias se passem no universo em que o preconceito delas mora. Ser autor é ver alguém degradar você e sua obra, sem dó nem piedade. E você vai ver tudo isso sem poder tirar o sorriso do rosto. Porque ser autor é escrever para quem realmente gosta das suas histórias, que espera ansiosamente seu livro sair para ler, reler e te mandar mensagem às quatro da manhã, dizendo que não parou de rir / chorar / suspirar / ficar louco de vontade de matar a mocinha ou de se casar com o mocinho. Ser autor é ir dormir às cinco da manhã, depois de escrever quase três mil palavras, sentindo as costas estalarem e os dedos duros de tanto digitar no teclado do computador, mas com um sorriso no rosto, pensando que seus leitores vão adorar aquela cena.


Ser autor é colocar em prática o famoso ditado: fazer do limão uma limonada. É ler cada crítica do seu tão amado livro e saber distinguir aquilo que pode te ajudar a crescer — e aproveitar — daquilo que é ofensa gratuita. É ouvir o que os leitores falam sem pedras nas mãos, ainda que você sinta seu coração sangrar por falarem mal daquele lindo e amado projeto que você passou meses escrevendo. Ser autor é saber agradecer o aplauso quando você acerta, mas sem achar que sua escrita é irretocável e sem deixar a vaidade subir à cabeça.

Não existe uma regra. Não tem fórmula mágica para ser autor. O que você precisa é ter a certeza de que o caminho é duro. Precisa trabalhar com afinco e seguir em frente, mesmo que encontre barreiras. Encarar a profissão exatamente como ela é: como uma profissão. Precisa estudar, pesquisar, fazer cursos para desenvolver seu português e sua escrita. Ser gentil. Ter humildade. E acreditar. Ainda que receba muitos nãos pelo caminho.

Então, aqui vai, finalmente, o meu conselho: quer ser um bom autor? Escreva. Invista em você, como investiria se fosse um médico, advogado, engenheiro ou professor, por exemplo. Não deixe que o “sucesso” lhe suba à cabeça. E tenha maturidade para lidar com críticas, porque elas sempre vêm. No final das contas, garanto a você que o carinho que recebemos dos nossos leitores fará tudo valer a pena. Escreva. Não limite sua inspiração. Faça histórias que se passem no Brasil, na China, nos EUA, no deserto do Atacama, ou até mesmo na cidade fictícia de Old Farm Ville. Exercite sua criatividade e seja feliz na carreira que escolheu. A literatura agradece e os leitores, também.

Boa inspiração! ;)


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